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Uma Experiência no Retiro Espiritual – Mergulho na Presença


Muitos aspectos da vida cotidiana, estímulos e preocupações nos colocam em outras esferas fora do momento presente e nos desconectam da realidade de simplesmente Ser(mos). A experiência do Viver em Grupo traz a possibilidade dessa reconexão.

Aqui partilho um pouco da minha jornada nessa proposta.

 

Retiro espiritual – Nazaré Uniluz

Nazaré Universidade da Luz, também denominada Nazaré Uniluz, foi criada em março de 1982. Com esta denominação desde setembro de 2004, foi qualificada como OSCIP (Organização da Sociedade Civil de Interesse Público) em 2005 e tem sede no município de Nazaré Paulista, estado de São Paulo.
A missão de Nazaré Uniluz é ser uma escola de desenvolvimento integral do ser humano, para a consciência de si mesmo e de sua inter-relação com o Todo.
Para cumprir esta missão, Nazaré Uniluz tem como metodologia proporcionar um ambiente onde atividades cotidianas são feitas considerando o sagrado presente nelas. Esta metodologia é denominada “Viver em Grupo” e sua universalidade está baseada na aplicação prática de princípios que são interdependentes entre si. 

 

 Viver em Grupo, um mergulho na presença

Tive a oportunidade de aprofundar essa experiência de abril de 2007 a abril de 2008, como residente em Nazaré Uniluz e depois, de junho de 2008 a janeiro de 2011 como focalizadora do programa do Viver em Grupo.
Desde que retornei para minha cidade natal, senti muita dificuldade de partilhar através da escrita algo sobre o significado dessa experiência pessoal. Não por achar que não fosse válido, mas pela dificuldade que encontro em colocar em palavras a experiência. Foi um rico período de mergulho interno e qualquer coisa que seja dita ou escrita sobre isso é apenas um esboço da experiência real vivida.
Mas aqui estou, e pretendo partilhar um pouco do que vivi nesse período em Nazaré Uniluz e de como reverbera no meu cotidiano presente.

 

O exercício da presença

Diz uma canção que “tudo é uma questão de manter a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo”. Considero uma forma de meditação. “Inspirar o ar, e dele se livrar”, como diz um poema de Goethe. Assim, um dos tesouros que a experiência em Nazaré Uniluz me proporcionou, através do ritmo, das meditações e do silêncio é que é possível manter essa atenção como postura interna meditativa, em qualquer situação que eu esteja vivendo. O exercício da atenção plena é o próprio exercício da presença. Não que eu fique cem por cento presente o tempo todo, mas cada vez que me proponho a prestar a atenção no que estou vivendo no aqui e agora, consigo isso com mais facilidade do que antes.

 

Para mim faz sentido pensar que é uma questão de manter a mente atenta e o coração aberto à experiência, seja ela qual for. É desafiante em muitos momentos porque abrir o coração sempre é um risco, a experiência pode ser desagradável, incitar sentimentos que não gostamos ou não sabemos lidar. É um estado de vulnerabilidade.

 

Uma das formas que utilizo para continuar o processo de abertura – que é contínuo e está muito, muito longe de chegar perto do fim, é não me dispersar em conversas superficiais sobre minhas experiências. O exercício do silêncio vai trazendo clareza e as partilhas acontecem espontaneamente em encontros especiais, que por sua vez não são encontros marcados, mas vividos no próprio fluir do exercício de estar presente na vida.

 

A magia dos encontros

Os encontros e trocas verdadeiras acontecem cada vez mais. Em Nazaré Uniluz isso é uma verdade que pode ser comprovada por qualquer um que tem a oportunidade de estar lá, seja pelo tempo que for. São encontros especiais porque nos relacionamos como pessoas, e não com papéis que desempenhamos. Não importa de onde viemos ou para onde vamos. Qual nossa idade ou nossa experiência. Que papel profissional ou social desempenhamos. O que importa é como tudo isso compõe o que sou naquele momento que me encontro com você e me permito te ver e ouvir, assim como falar e ser ouvida. Os aprendizados são incríveis. Respostas a perguntas que nem fizemos nos chegam e percebemos que as estávamos buscando sem saber. Dá uma sensação de que o caminho de cada um faz parte de nosso caminho. Como se fosse um outro “eu” fazendo uma experiência diferente. Uma sensação de amor e de fazer parte.

 

Não é um mar de rosas…

É claro que nem sempre é esse amor… algumas vezes o encontro nos desafia, não queremos ouvir o que está sendo dito, ver o que estamos vendo, sentimos uma antipatia pela pessoa que encontramos, não admitimos que sejamos também parte dessa possibilidade. “Essa não, nada a ver comigo”. E aí surge uma rica oportunidade de aprofundar nossas “sombras”, nossos medos e defesas e percebermos “o que pega”. É preciso respirar mais, acalmar mais, perceber mais e principalmente confiar mais. Ter fé. Confiar que estamos sendo cuidados e guiados e que está tudo bem. Que tudo faz parte. Difícil, muito difícil às vezes. Mas possível, totalmente possível. Não de uma vez só. Lembro-me de situações em que não consegui encarar. Fui para o “automático” e deixei correr. Senti que perdi uma oportunidade, mas foi o que deu para ser. E tudo bem. Trabalhar o perdão de nós mesmos é necessário, a aceitação e desapego da expectativa que tenho de ser perfeita e poderosa. Outras oportunidades surgiram e surgem continuamente, e posso aos poucos ir aprofundando minha experiência nesse sentido.

 

Ser e não ser…

Esse exercício de estar presente no agora me trouxe uma sensação desconfortável de estar “desmanchando” internamente. Lembro-me de ter compartilhado isso várias vezes durante o período em que estava vivendo em Nazaré Uniluz. É o processo de desconstrução da sua imagem interna, me disseram. O que sei, ou penso que sei, é que eu realmente tinha muitas certezas e algumas ideias claras sobre como algumas coisas deveriam ser, quando fui morar lá. Ao mesmo tempo, eu tinha uma busca por clareza em relação à minha “missão” aqui na Terra, nessa vida. Como se eu tivesse que fazer algo que eu não conseguia saber ao certo o que era.

 

Durante o tempo que vivi no campus isso tudo foi se desmanchando. Foi ficando nítida a percepção de que qualquer controle que eu achava que tinha sobre qualquer coisa era uma grande ilusão. As sincronicidades e as riquezas que as experiências tinham quando eu simplesmente confiava e me entregava ao fluxo do momento deixavam claro que todo o esforço que eu fazia para chegar no resultado que eu visualizei antes, era um desperdício de energia e um empobrecimento das relações.

 

Confiança para fluir

 Não que eu não tenha ou não tivesse na época a consciência das minhas responsabilidades ou que não era importante estar fazendo o que fazia, mas a forma de realizar trás e trazia um nível mais profundo à experiência. Foi ficando cada vez mais forte a sensação de que a “guiança” vinha de outro nível, mais sábio e rico do que da minha limitada percepção da realidade. A sensação de ser instrumento e canal para que a magia do encontro acontecesse – encontro comigo mesma, com as pessoas que estavam comigo, com toda a natureza presente, foi se fortalecendo dia a dia. Tudo proporcionando insights e aprendizados profundos sobre a realidade do ser.

 

Com a mão na massa

Por exemplo, fazendo pão. O pão de Nazaré Uniluz é reconhecido como especial por quem passa por lá. Não é uma receita complicada, qualquer um pode fazer em casa. Mas comer o pão de Nazaré feito em Nazaré é diferente. Geralmente tem um “focalizador” responsável por fazer o pão, mas várias pessoas participam dessa atividade. Fiz pão inúmeras vezes quando estava lá. No início me sentia tensa porque sentia como uma “responsabilidade”, precisávamos dos pães para servir no desjejum e no jantar, mas e se não desse certo, não ficasse bom? Como eu acompanhava grupos diferentes na padaria, às vezes tinha pessoas que tinham dificuldades em mexer com a massa e demorávamos a conseguir o ponto. Ou o grupo se dispersava conversando e eu ficava tentando manter a “disciplina”.  Ou alguém se emocionava e fazer pão virava uma terapia. Ou virava uma festa e todos confraternizavam o ato de fazer pão. Cada grupo é único na experiência que manifesta, então mesmo fazendo pão inúmeras vezes, sempre era diferente. 

 

Alquimia 

Mas aí está a magia, o pão sempre dava certo e era especial. E nos ensinava a partir do seu fazer algo muito importante para nosso caminho de desenvolvimento. Para mim, cada etapa do fazer o pão tem seu significado e aprendizado. A separação dos ingredientes, a dosagem diferente de cada um, a importância fundamental de todos. A busca pela “integração” (homogeneização) quando misturamos e sovamos a massa. A necessidade da ação, a força, a atitude para conseguirmos realizar essa fase. A entrega, o desapego e a confiança de colocar a massa para “crescer”. A retomada do propósito, a forma do pão na forma. Mais uma etapa de crescimento e depois levar ao forno, o fogo que concretiza o pão como alimento.

Quando colocamos o pão na forma, geralmente fazemos todos os pães iguais. Faz inclusive parte da entrega e desapego do ego, não meu pão, mas nosso pão. Algumas vezes tem alguém que precisa fazer um pão personalizado, como seu pão. E tudo faz parte do exercício. 

 

Ser transparente

Outra atividade que considerei importante para o meu processo foi a limpeza dos vidros: o trabalho da transparência. Sempre senti a transparência como um desafio. Ver e mostrar o dentro e o fora com clareza. Os vidros me ensinaram que têm uma função importante de proteção. As janelas se abrem e fecham conforme o “clima” interno e externo. É importante saber quando abrir e quando fechar. A limpeza é muito importante porque a sujeira vai se acumulando aos poucos e às vezes passa despercebida quando o vidro é grande e conseguimos receber luz e ver a paisagem através dele. Muitas vezes não vemos o vidro, só através dele e assim não percebemos o que ele “segurou”. Quando o vidro fica opaco e sujo recebemos a paisagem e a luz também opaca e suja. De dentro é mais fácil ver a sujeira de fora. De fora é mais fácil ver a sujeira de dentro. Dentro e fora são importantes. Temos que transitar dos dois lados se quisermos a transparência. 

 

Sombra e Luz

Aprendi com um amigo artista que sombra é criada por um objeto que não permite passagem da luz. Pesquisando na internet encontrei essa explicação: “A sombra é algo inexistente, porém, é o nome que damos para a ausência da luz, a silhueta que é formada quando um corpo bloqueia a luz, portanto pode ser considerado incorreto dizer que um objeto “produz sombra”. Exemplos de bloqueios da luz feitos por corpos: Corpo completamente opaco: não permite a passagem de luz. Corpo meio transparente: permite, parcialmente, a passagem de luz, dependendo da opacidade. Quanto maior a opacidade de um corpo, maior será o bloqueio de passagem da luz e mais nítida será a sombra”. É o tipo de explicação simples e profunda quando estamos em um processo interno de reflexão sobre transparência, congruência e sombra, como era meu caso.

 

Brócolis e rúculas… grandes mestres

E trazendo mais um exemplo de atividades e aprendizados, não posso deixar de falar da rúcula e do brócolis. Grandes “mestres” na cozinha. Eu com toda minha ansiedade e dificuldade de estar presente, quando precisava encará-los era um sofrimento. Geralmente cozinhamos para grupos grandes de pessoas e os maços pareciam não ter fim. Folha por folha, galhinho por galhinho, minutos pareciam horas. Internamente a rebelião era acirrada. Tudo que antes parecia calmo e tranquilo fervilhava enquanto me mantinha naquela atividade: lavar a rúcula ou o brócolis. E por isso mesmo, fui convidada muitas vezes a estar com eles. E o trabalho foi se processando e com o tempo fui conseguindo simplesmente lavar rúcula ou brócolis… às vezes.

 

O exercício continua

Sinto-me honrada e imensamente grata por tudo que vivi e vivo nesse espaço sagrado, e sigo no exercício da Presença, onde quer que eu esteja.

Aceitando o convite de:

  • perceber e seguir o ritmo e a ordem cerimonial de cada momento e atividade.
  • dar mais importância à qualidade das experiências ao invés da quantidade delas.
  • não ter medo dos encontros e a confiar no sagrado presente em todas as coisas.
  • aceitar a minha limitação e o meu caminho, de ser humilde.
  • me desapegar de expectativas e me entregar ao fluxo da “vida abundante”.
  • perceber que muita coisa muda e se transforma, mas algo permanece essencialmente.

 

Nazaré Uniluz tem realizado seu propósito e sinto que me ajudou a estar mais perto do meu. Com a egrégora formada no decorrer de sua existência, tem possibilitado aprendizados para muitos seres. Vamos nos conectar e vivenciar essa experiência onde quer que você esteja? 

 


Por Rosangela Gonçalves, outubro/2020.

Graduada em Serviço Social pela UNESP em Franca-SP, pós-graduação em Psicologia Transpessoal por Nazaré Uniluz, terapeuta com cursos de massagens, florais, terapia corporal e energética. Tecelã e focalizadora de Danças Circulares.
Em 2007-2008 foi residente em Nazaré Uniluz. Depois desse período foi coordenadora por três anos do Programa Viver em Grupo – metodologia básica desse espaço.

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