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Reflexões sobre a não-dualidade

A busca por estados de consciência não-duais que revelam a unidade do Ser ou a Unidade da Vida sempre esteve relacionada às religiões ou a alguma forma de prática espiritual. Em anos mais recentes, esses ‘estados’ ou ‘momentos de iluminação’ têm acontecido de modo espontâneo e não necessariamente em contextos religiosos ou espirituais. Espontaneamente, jovens e adultos por todo o mundo estão ‘despertando’ para uma ‘realidade’ totalmente revolucionária – o desaparecimento ou a morte da ideia de ‘indivíduo’ ou do ‘eu separado’, assim como o conhecemos no mundo fenomenológico de dualidades e diversidades.

O que ‘aparentemente’ acontece é que o indivíduo cessa de existir como entidade fragmentada e separada. Quando ‘ele não está mais ali’, o que permanece é um fluxo indivisível e indescritível de vida e energia. Numa linguagem que volta a ser dual, isso acabou recebendo vários nomes: Amor incondicional, vida impessoal, Vazio, Anarquia Divina, libertação, iluminação, experiência não-dual, dentre outros.

“‘Advaita’ (do idioma sânscrito) significa “não são dois” e expressa da melhor maneira possível, em palavras, que tudo e todas as coisas já são uma unidade e que não existe nada mais a não ser ‘Isso’.”  – Tony Parsons

As implicações disso para o modo de perceber a realidade são revolucionárias. Para os que se percebem como indivíduos vivendo o sonho da separação, a percepção ou realidade não-dual pode parecer um sinal fraco ou uma onda apontando no vasto oceano e ainda muito longe da praia. Mas, ao fazer essa afirmação, a própria linguagem impõe uma limitação e cria um paradoxo, pois ‘isso’ não implica nem tempo nem distância e, como diz um antigo axioma, “está mais próximo que mãos e pés”.

Na história da humanidade, todos os indivíduos que ‘despertaram e se libertaram’ da ilusão são presenças eternas, cujos exemplos continuam a inspirar, mesmo quando grande parte do que lhes é atribuído vem dos seguidores de seus exemplos.  A dificuldade de escrever ou falar sobre a não-dualidade começa com a própria linguagem e com as palavras que servem a uma mente que, por natureza, é dual.

O que realmente acontece, quando o despertar e a libertação emergem? A mente quer encontrar logo um método, uma prática, um jeito de fazer isso acontecer. Nisso reside o grande mistério. Entretanto, esse mistério não pode ser desvendado pelos métodos duais que recomendam várias práticas para ajudar o buscador a se libertar da própria busca: meditação, concentração, trabalhos terapêuticos, autoanálise, um mentor, um mestre ou sábio orientador, voltar-se para dentro de si mesmo e desenvolver uma mente alerta ao momento presente, na expectativa de que a ilusão e o eu separado se dissipem.

O que existe de mais revolucionário, quando se reflete com a mente sobre a não-dualidade, é levá-la a perceber que está criando as suas próprias armadilhas, quando faz com que o que está sendo chamado de iluminação seja a memória preservada de um estado impermanente de consciência expandida, uma epifania, uma experiência culminante, um satori, um nirvana. Esses ‘estados’ impermanentes, se considerados como ‘algo que acontece a alguém’, continuam servindo sutilmente à condição ilusória do eu separado.

Não existe esperança para o eu separado que quer se iluminar. Existe iluminação, mas não existe um eu iluminado. Existe libertação. Mas não existe um eu libertado. Existe amor incondicional, mas não um eu separado que ama incondicionalmente. Quando essas realidades são reais, elas são reais para um fluxo energético de vida abundante que é tudo que é, inclusive a noção ilusória de que alguém existe como uma entidade separada.

ISSO é o UM que sonha ser muitos. E, no sonho de UM, existe um ‘eu’ que acredita na realidade de sua existência separada e na de todo o resto: eu e o outro, eu e o mundo, eu e o Cosmos…

O insight mais iluminador que se pode ter no sonho é: enquanto o eu separado perdura, ele mesmo deve perceber que os métodos até então utilizados, paradoxalmente ajudam a mantê-lo num estado ilusório. Além disso, não há nada a ser feito, a não ser alegrar-se na alegria, entristecer-se na tristeza, apanhar água, ligar o fogão, trocar a fralda do bebê… pois isso é TUDO QUE É, aparentemente.

O que é mais revelador, portanto, é o fato de que, até então, ensinamentos em grande parte tendem a apontar na direção da existência de um ‘eu’ multinivelado que pode ser melhorado, à medida que aspectos mais nobres dele mesmo vão sendo revelados – um eu inferior em contraposição a ser um eu superior; um eu pior se transformando num eu melhor e assim por diante. Entretanto, o que deixa o segredo de milhares de anos de treinamento espiritual totalmente revelado é o fato de que não é uma ‘presença’ que se busca, mas a ‘ausência’ de qualquer ‘eu’ que se sinta separado do que está sendo buscado ou da única presença que existe – a de ser Um ou de Não-São-Dois.

Dessa ausência surge o deleite e a percepção pura de Ser, que é nada e tudo simultaneamente. Quando a identidade ilusória e separada se dissolve, surge a radiância natural e eterna da única presença que é tudo que é e não há mais ninguém ali para se apoderar dos conteúdos da consciência. Se emergir o sentido de que algo iluminador e extraordinário aconteceu a alguém, simplesmente é o eu separado voltando ao campo de consciência e retomando o seu lugar, na ordem que ele parece conhecer tão bem.

Mas isso também é parte integral do jogo ou do sonho do Único Ser.

Sonia Café –  Escritora, Co Fundadora e Colaboradora de Nazaré Uniluz

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