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A Psicologia Transpessoal


A Psicologia Transpessoal nasceu por conta da necessidade inadiável de acolher algo que é um elemento humano essencial, mas que foi negado ou negligenciado durante séculos: a “transcendência”. A ciência clássica com sua atitude racionalista, materialista, mecanicista, resistiu vigorosamente impedindo que esse tema, por muito tempo, fosse introduzido em seu campo de saberes.

 

A Psicologia Transpessoal

Abraham Maslow, um dos fundadores da Psicologia Transpessoal, afirmou que, ao negar a sua dimensão transcendente, os seres humanos poderiam ficar doentes, violentos e niilistas, vazios de esperança e apáticos. Para ele a experiência transcendental ou espiritual antecede a dogmas ou crenças religiosas.

Esta negação que marcou os caminhos da psicologia, acontecia também em outros campos do conhecimento. Nossa cultura ocidental foi marcada pelo racionalismo cientificista que gerou uma cisão, um afastamento do ser humanos em relação à Natureza e ao Cosmos e, portanto, em relação à sua verdadeira essência como um Ser integrado ao Todo.

 

Movimento do pensamento em Psicologia

Nos primórdios da história da Psicologia, William James (séc. XIX), ao definir a consciência como objeto de estudo da Psicologia, reconheceu no ser humano diversos níveis de consciência, desde os estados de vigília a estados transcendentes, incluindo a telepatia e a parapsicologia, definindo a Consciência como um amplo espectro de inúmeras manifestações. Mas a contribuição de James foi esquecida depois que a Psicologia Behaviorista, criada por Watson e a Psicologia Experimental, que eram marcadamente racionalistas e materialistas, passaram a dominar o cenário da Psicologia. Na visão do Behaviorismo não há nada semelhante à transcendência e nem mesmo à consciência. O homem, nessa visão, não passa de um ser condicionável e condicionado por estímulos externos.

Mas chegou o momento em que Psicologia foi obrigada a admitir, através da genialidade e ousadia de Sigmund Freud, no começo do século passado, a dimensão inconsciente do conhecimento. Freud demonstrou que o psiquismo humano não está reduzido à atividade da consciência de vigília, mas que há uma vasta dimensão inconsciente que precisa ser acessada para a obtenção do autoconhecimento. 

Carl G. Jung amplia mais ainda o conceito de inconsciente, produzindo um mapa mais detalhado (uma nova cartografia) da consciência, alargando a noção de inconsciente e defendendo a hipótese da existência de um inconsciente coletivo.

A partir de então, tornou-se presente e imperativo o reconhecimento da dimensão subjetiva no processo do conhecimento e muitas outras portas de investigação se abriram. Surgiram as contribuições de escolas da Psicologia que introduzem a dimensão da unidade corpo-mente, como a Bioenergética, o Psicodrama, a psicologia da Gestalt, a Análise Transacional, a Psicologia Humanista e Existencialista, entre outras.

 

astro-ressonancia-post-site-nazare-uniluzEstudos sobre o espectro da consciência

Na década de 60 do século passado alguns pesquisadores da área da Psicologia (nos Estados Unidos) se interessaram em fazer pesquisas sobre estados ampliados de consciência, entre eles Abraham Maslow, um importante integrante da Escola Humanista e Stanislav Grof, psiquiatra e pesquisador da Universidade de John Hopkins, EUA.  

Maslow pesquisou e descreveu experiências de expansão da consciência e de transcendência denominando-as de “experiências culminantes”, afirmando que pessoas que as vivenciaram mostravam fortes tendências para a “autorrealização”. Por autorrealização Maslow entendia a realização de nosso potencial na direção ao melhor do humano, ampliando a consciência de si mesmo e de sua relação com o outro.

O trabalho de Stanislav Grof, utilizando inicialmente substâncias psicodélicas e posteriormente técnicas de respiração (respiração holotrópica), nos anos 60 e 70, mostrou como os estados ampliados de consciência podem ser vistos como experiências transpessoais de cunho terapêutico. 

A experiência, estudo e observação de certos estados de consciência alterados, antes classificados como anormais ou patológicos, passam a ser aceitos não só como possíveis, mas também como saudáveis e libertadores. Assim, o conceito de normalidade se expande.

 

Contexto cultural dos anos 60

Além das pesquisas sobre os estados ampliados de consciência em Psicologia e Psiquiatria, que vão revolucionar a Psicologia em meados do século passado, ocorre também e simultaneamente, toda uma movimentação cultural que se traduz numa verdadeira turbulência social no contexto da cultura ocidental: questionamentos em relação à política, à economia, à educação, aos direitos humanos, etc., que se refletem em grandes lutas sociais na América Latina, no movimento da Contracultura, no movimento feminista na Europa e EUA. 

Surgem movimentos de cultura alternativa que buscavam a libertação dos valores estreitos impostos pelo racionalismo dominante que impunha uma estreita e limitada percepção da realidade. Propostas de retorno a uma vida comunitária e, ao mesmo tempo, o interesse crescente pelas filosofias e o misticismo oriental, que abriram um novo espaço para a prática do autoconhecimento, estimulado pela valorização da interiorização e a busca da transcendência (atitudes que estão no cerne do pensamento oriental). 

Milhares de pessoas passam a estudar a Filosofia Oriental e até mesmo a aderir às religiões ou práticas filosóficas do Oriente das mais diferentes linhagens como o Yoga, o Vedanta, o Budismo, o Taoísmo, o Sufismo, entre outros que sustentam a necessidade da prática da meditação, da respiração com atenção plena, da interiorização, do relaxamento, para a expansão da consciência.

A cultura ocidental começa então a reconhecer e experimentar que a prática da meditação, por exemplo, produz evidentes estados de expansão da consciência. Isto passa a ser, sobretudo nos EUA, aceito por pesquisadores e praticantes como uma ferramenta importante para a cura do estresse e para facilitar o equilíbrio emocional. 
 

Surge a Psicologia Transpessoal

É neste terreno fértil de questionamentos e abertura para novos horizontes que em 1968 é inaugurada a Psicologia Transpessoal. 

Diversos estudiosos foram se congregando em torno dessas mesmas ideias de humanização da Psicologia, de tal forma que teóricos como Viktor Frankl, Stanislav Grof, James Fadiman e Anthony Sutich uniram-se a Abraham Maslow e oficializaram a Psicologia Transpessoal, valorizando o estudo da consciência e seus estados, e o reconhecimento da transcendência e da espiritualidade como elementos legítimos da psique humana. 

Posteriormente Kenneth Ring e Roberto Assagioli também apoiaram esse movimento e mais recentemente autores como Ken Wilber, Elisabeth Kubler-Ross, Basarab Nicolescu, Edgar Morin, René Girard, Rupert Sheldrake, Amit Goswami, têm contribuído, direta ou indiretamente, para a consolidação da visão Transpessoal. No Brasil, a Psicologia Transpessoal obteve um importante desenvolvimento com as contribuições de Pierre Weil, Roberto Crema, Jean-Yves Leloup, Vera Saldanha, Dulce Magalhães, Manoel Simão, Arlete Àcciári, entre outros.

 

Conceitos-chave da Psicologia Transpessoal

O que define basicamente a Psicologia Transpessoal é o reconhecimento da existência de diferentes estados de consciência e de que todos eles são aspectos distintos de uma mesma e subjacente unidade fundamental do Ser. Um de seus conceitos fundamentais é o de “Consciência da Unidade” ou “Consciência Una”.

A existência da Consciência Una é o que legitima o fenômeno da transcendência. Uma consciência total e sem limites, onde inexiste uma realidade dual, fragmentada, tal como a experimentamos em outros estados de consciência.  A Consciência na sua totalidade pode ser representada como uma grande mandala que abarca múltiplos e diversos estados de consciência. Podemos dizer que tais estados manifestam a diversidade na unidade.

Outro conceito chave da Psicologia Transpessoal é o conceito de Vida. A Vida é uma teia, tudo está interligado, e ela não pode ser mais considerada como uma propriedade deste ou daquele ser em particular, mas uma propriedade do cosmos em evolução, onde cada ser é uma manifestação.

Na visão transpessoal, a Vida é um pulsar contínuo, atemporal, no qual nascimento-morte-renascimento faz parte de um mesmo e único processo. Vida é movimento e transformação contínua. 

Um outro conceito fundamental é o de “ego e para além do ego”. Para a Psicologia Transpessoal o ego é um construto mental que tem a tendência de solidificar a energia mental como uma barreira, em um estado de repressão. Assim, neste estado de repressão do nosso ser mais genuíno, desenvolvemos um construto artificial a ser aprovado pelo mundo externo, o que resulta é um ego rígido e inflexível. Este ego precisará passar por uma diluição circunstancial, de tal forma a favorecer a ampliação da consciência e a emergência de um estado de despertar e de transcendência. 

Segundo Jean-Yves Leloup, essa experiência transpessoal pode levar a pessoa a uma abertura do ego para além do ego (Self). Leloup afirma: “Assim, para conhecer o Self, não é necessário destruir o ego, mas apenas abri-lo, torná-lo transparente e, em primeiro lugar, cuidar dele e curá-lo.”

É muito importante esclarecer que a Psicologia Transpessoal não pretende uma evasão da dimensão pessoal. O prefixo trans significa mais além e através de, e isto quer dizer que a visão transpessoal busca integrar o transcendental ou espiritual no nível pessoal através da escuta e de práticas que facilitam a emergência de estados de consciência que transcendem o ego, produzindo transformações que possibilitam alcançar a dimensão mais profunda do Ser. É necessário enraizar para florescer.

A Psicologia Transpessoal oferece algumas cartografias da Consciência, visando dar conta do amplo espectro de níveis de consciência do ser humano. Para isso, acolhe contribuições de cartografias anteriores como a freudiana, a junguiana e, a partir dos autores da transpessoal, tais como Jean-Yves Leloup e  Kenneth Ring, as ampliam para outros níveis de consciência como o transgeracional, filogenético, simbiótico, angelical, físico-cósmico, etc. 

A abordagem Transpessoal reconhece os valores fundamentais do ser humano, a integração da espiritualidade no cotidiano e nas práticas cooperativas. Favorece a ampliação da consciência e o reconhecimento do ser humano enquanto uma unidade bio/psico/social/espiritual/ecológica. Nesse sentido, oferece uma importante contribuição para o campo terapêutico, para a educação, para a liderança nas organizações, para as associações humanas e para o processo geral de conscientização e evolução da humanidade.


Por Lia Beatriz Grillo Daniel, integrante da Equipe Transpessoal, em janeiro/2021

Graduação em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Graduação em Psicologia pela Universidade de Paris VIII (França). Mestrado e D.E.A em Psicologia e Ciências da Educação pela Universidade de Paris VIII e X (França). Pesquisa e estágio no Centre de Recherches Psycanalytiques – École de Bonneuil, Paris, França. Fundadora do Centro de Pesquisa em Psicologia e Linguagem / CPPL, Recife, PE. Fundadora do Centro de Pesquisa de Psicanálise com Crianças / CPPC – “Projeto Lugar de Vida”- USP (São Paulo). Especialização em Filosofia da Psicanálise pelo Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas / UNICAMP. Especialização em Psicologia Transpessoal pela Associação Luso-Brasileira de Transpessoal – ALUBRAT. Formação em Transpessoal pela Universidade Estadual de Campinas/Unicamp (curso de extensão). Formação em Yoga pelo Instituto Narayana de São Paulo e pelo Instituto Isvara de Campinas. Formação em Filosofia Oriental (Vedanta) com Swami Vagishananda Saraswati e Andrês de Nuccio pelo Isvara Instituto de Yoga de Campinas. Membro da equipe ALUBRAT de Campinas. Ex-monitora do curso de especialização em Psicologia Transpessoal. Membro do Colégio Internacional dos Terapeutas – CIT. Psicanalista e posteriormente psicoterapeuta de abordagem Transpessoal desde 1983.

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