Metáfora (por Zezé Gil)

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27 de abril de 2014

Em 1989, quando fui morar em Nazaré – onde morei por 3 intensos anos – comecei a trabalhar na limpeza dos quartos e banheiros.

Depois de 15 anos trabalhando em empresas multinacionais eu precisava de um momento sabático para descobrir que rumo eu queria que minha vida tomasse. Sabia, com certeza, que viver sem ver o sol, longe da natureza, sem tempo livre para desenvolver outras das minhas potencialidades me fazia sentir perdida de mim mesma, sem conexão interna e sem sentido social. Também sabia que nada na vida é permanente e que as coisas mudam o tempo todo. E eu queria mudar seguindo o fluxo das mudanças.

E lá fui eu no ensolarado mês de janeiro para a comunidade que me acolhera com muito carinho. Instalei-me num quarto minúsculo com um pequeno armário onde eu guardaria tudo o que eu tinha. Abri a janela vi a pequena floresta de eucaliptos, cujo frescor adentrava em meu novo quarto, e pássaros coloridos de pios sonoros me davam boas vindas. E assim comecei essa experiência que me arejou o físico, a mente e o espírito.

Não por acaso, fui focalizar então o trabalho da limpeza dos quartos e banheiros dos hóspedes. Depois trabalhei na recepção e, junto com isso, focalizava também o Jogo da Transformação. Mas foi na limpeza, por um ano e meio, onde pude trabalhar tantas facetas de mim mesma.

As metáforas desse trabalho me levaram a descobrir minhas próprias metáforas. Num primeiro momento, meu ego dizia que eu poderia fazer outras coisas, pois tinha trabalhado em multinacionais e adquirido muita experiência. Depois, fui me acalmando internamente ao descobrir que não importava muito o que eu fazia, mas sim como fazia, que intenção eu colocava no trabalho, para quê eu estava fazendo e que expectativas eu tinha com o resultado.

Com o tempo tudo foi se organizando em minha mente à medida em que organizava os quartos, o jardim, os pequenos vasinhos de flores que usávamos conscientemente, sabendo exatamente qual flor poderia ser tirada do jardim e qual seria sua função. Fui descobrindo que o foco não é no resultado, mas no desenvolvimento da atividade e, quanto mais refinássemos nossas ações, mais o resultado seria gratificante e surpreendente, principalmente quando os hóspedes davam seus depoimentos de quanto uma determinada ação nossa tinha tido um efeito tão positivo neles e, claro, essa gratidão deles nos atingia na alma.

O ato de limpar e organizar abre espaços externos e internos em nós, removemos energia estagnada. “Guardar objetos e papéis, e depois esquecer o que foi guardado, é uma metáfora de nossas memórias ancestrais. Quando nossos armários estão repletos, já não sabemos mais o que há lá dentro.” (Maya Tiwari).

Gostava de limpar os azulejos que iam descortinando outras cores e isso me dava a possibilidade de estar presente no presente, concentrada na atividade. Era como colocar luz na matéria. Até hoje tenho um encanto especial ao dar banho em banheiros. É como se através de nós o universo se tornasse mais consciente de si mesmo.

Maya Tiwari no livro Caminho da Prática escreve: “Termine todas as ações que começar. Os ritmos da natureza pedem que cada ocorrência chegue ao seu final. Ao terminar cada ato iniciado, você pede ao universo que lhe dê tempo para restaurar suas energias naturais. A cada ação terminada segue-se um sentimento de exuberância – a alegria que surge depois de plantar os campos naquele ano, terminar um quadro ou lavar os pratos depois de uma refeição deliciosa e saudável. O coração se torna leve e bem resolvido e a respiração flui suavemente por ele. O espírito da graça, trazendo gratidão pelas dádivas recebidas, é fortificado.”

Bom, naquele trabalho simples e intenso que eu desempenhava na comunidade, descobri que podemos ser catalizadores de uma consciência mais elevada por meio de simples afazeres e contatos com a natureza. Sempre que agora me sobrecarrego de afazeres, tento perceber se estou fluindo nesse ritmo ou se estou me afastando de quem eu sou, e me dou descansos e momentos de lazer que me energizam e regularizam o ritmo interno.

 

Zezé Gil é amiga de Nazaré Uniluz, já foi residente e é professora de inglês e de Yoga, Coach – Profissional e de Vida, Facilitadora do Jogo da Transformação.  Escreve mensagens lindas e inspiradoras em seu blog: http://zezegil.blogspot.com.br


7 respostas para “Metáfora (por Zezé Gil)”

  1. Gostaria de receber maiores informações sobre o programa de residência.
    Grato Pela atenção,
    Mário

  2. a unica maneira que conheço de se elevar espiritualmente e ser util p/ajudar todos os seres vivos ,gostaria de saber a programaçao p/quem tem interesse em residencia e qual a idade maxima

  3. Mirella disse:

    Muito bacana, Zezé.
    Tb limpei muitos banheiros e quartos no Schumacher, e concordo plenamente com a questão ‘não importa o q fazemos, e sim como fazemos’.
    Um beijo

  4. Lígia Ribeiro disse:

    Zezé,

    Adorei seu texto. Impossível ele não disparar um processo de reflexão pessoal. Chegou em momento muito oportuno. Obrigada por compartilhar sua experiência. Se não se opor, gostaria de compartilhar seu texto pelo facebook com amigos. Beijos e ótima semana.

  5. Cristina Cavoto disse:

    Querida Amiga Zeze’,

    Tambe’m tive uma experiencia semelhante, quando trabalhei por mais de dois anos na limpeza do estu’dio onde pratico yoga. O sistema de troca de aulas de yoga pelo meu servico de limpeza foi muito gratificante. Sempre me deu muita satisfacao e alegria pensar que o meu tempo e a minha dedicacao estavam ‘a servico de um grupo de pessoas que se sentiriam bem em encontrar um lugar limpo e arrumado para a sua pra’tica.
    Obrigada por partilhar a sua experiencia. Um abraco. Cris

  6. guaracy colaiacovo disse:

    Olá Zezé, tudo bem com você?
    Gostei muito do texto.
    Utilizo em minhas aulas muitas metáforas. São muito apreciadas por alunos de todas as idades. Deixam uma mensagem/ensinamento para a vida.
    Parabéns,
    Guaracy

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