A visão da Psicologia Transpessoal

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7 de março de 2016

A Psicologia Transpessoal surgiu para dar conta de algo essencial que as psicologias anteriores ainda não tinham acolhido dentro do campo de seus respectivos saberes: transcendência e a espiritualidade.

Abraham Maslow, um dos mentores da Psicologia Transpessoal, afirmou que, ao negar a sua dimensão da transcendência, o ser humano cria doenças para si, para a sociedade e para o planeta.

A Psicologia Transpessoal vem, então, resgatar a dimensão espiritual e transcendental do ser humano e amplia o conceito de Consciência e o conceito de Vida.

Nos primórdios da Psicologia enquanto disciplina científica autônoma, o médico, filósofo e psicólogo William James (século XIX) afirmava que a consciência envolve diversos estados de manifestação, incluindo a transcendência, a paranormalidade, a telepatia e a espiritualidade. Entretanto, apesar dessa concepção visionária para a época, o pensamento de James foi esquecido e o foco dos estudos em psicologia dirigiu-se predominantemente para o comportamentalismo e para a psicologia experimental, negando assim um largo espectro de manifestações inerentes ao ser humano.

Isto que aconteceu nos caminhos da psicologia era análogo ao que estava acontecendo em outros campos do conhecimento. A cultura ocidental, que foi intensamente marcada pelo racionalismo cientificista, acabou gerando uma cisão, um afastamento do ser humano em relação à sua verdadeira envergadura, negando sua conexão com a Natureza e o Cosmos. A ciência clássica com sua atitude racionalista, materialista, mecanicista e determinista e também com sua crença na objetividade pura, resistiu vigorosamente, impedindo que essa concepção do ser humano fosse introduzida em seu campo de saberes.

Mas a Psicologia como disciplina científica acabou sendo obrigada a admitir, no início do século XX, através da genialidade e ousadia de Sigmund Freud,  a dimensão inconsciente, portanto subjetiva, do conhecimento.
Freud demonstrou que o psiquismo humano não está reduzido à atividade consciente, mas há uma vasta dimensão inconsciente que precisa ser acessada para obter-se o autoconhecimento.

Jung amplia mais tarde a noção de inconsciente propondo a hipótese da existência do inconsciente coletivo.  A partir de então se torna cada vez mais presente e imperativo o reconhecimento da dimensão da subjetividade no processo do conhecimento.

A partir de Freud e Jung muitas outras portas de investigação se abriram acolhendo novas dimensões que definem a humanidade trazendo as contribuições de escolas que introduzem a dimensão da unidade corpo-mente, como a bioenergética, o psicodrama, a psicologia da gestalt, a análise transacional, a psicologia humanista e existencialista, entre outras.

Na década de 60 do século XX alguns pesquisadores da área da psicologia (sobretudo nos Estados Unidos) se interessaram em fazer pesquisas sobre estados ampliados de consciência. Entre eles destacam-se Abraham Maslow e Stanislav Grof.

Maslow pesquisou e descreveu experiências de expansão da consciência e as denominou “experiências culminantes”, afirmando que as que as pessoas que as vivenciam mostram fortes tendências para a auto-realização. Por auto-realização ou auto-atualização Maslow entende a realização de nosso potencial na direção do melhor do humano, através da ampliação da consciência de Si–mesmo e de sua relação com o outro.

Maslow descreve as experiências culminantes como experiências transcendentes de êxtase, de bem-aventurança, ou então sentimentos de unidade com o cosmos, de iluminação, de felicidade, de arrebatamento e isto em qualquer situação, seja no trabalho, em instantes de contemplação, no sentimento de estar apaixonado, no encontro amoroso, ao escutar uma música, ou mesmo ao contemplar uma flor. Todos nós podemos ter ou já tivemos um ou muitos momentos como estes. Trata-se de uma vivência singular, única e especial. Segundo Maslow “… sem o transcendente ficaríamos doentes, violentos e niilistas, vazios de esperança e apáticos.”.

O trabalho de Stanislav Grof, utilizando inicialmente substâncias psicodélicas e posteriormente técnicas de respiração (respiração holotrópica), nos anos 60 e 70, mostrou como os estados alterados de consciência podem ser vistos como experiências transpessoais de cunho terapêutico.

A experiência, o estudo e a observação de certos estados de consciência alterados, antes classificados como anormais ou patológicos, puderam, então, passar a serem aceitos não só como possíveis, mas também como saudáveis e libertadores. Assim, o conceito de normalidade se modificou radicalmente.

É, portanto, nos anos 60 do século XX que surge oficialmente a Psicologia Transpessoal. Foi Abraham Maslow que, em 1968, anuncia esse novo campo do saber na segunda edição de seu livro “Introdução à Psicologia do Ser”. Vários outros pensadores e pesquisadores da mesma época como Viktor Frankl, Stanislav Grof, James Fadiman e Anthony Sutich, Kenneth Ring, Roberto Assagioli abraçaram esse movimento que ampliou o campo de investigação e reflexão de uma visão transpessoal do ser humano.

Mais recentemente, autores com Ken Wilber, Elisabeth Kubler-Ross, Basarab Nicolescu, Edgar Morin, René Girard, Rupert Sheldrake, Amit Goswami, entre vários outros, têm contribuído, direta ou indiretamente, para a consolidação dessa visão.

Maslow trouxe muitas contribuições importantes para a clínica, para a educação e as organizações, tais como a ‘pirâmide das necessidades’ e a formulação do ‘mecanismo de defesa da dessacralização’ que, segundo ele, consiste na negação de valores fundamentais humanos resultando num empobrecimento da vida, na medida em que banaliza, por exemplo, a sexualidade e a morte, além de outras dimensões fundamentais da existência.

A principal contribuição da Psicologia Transpessoal é o reconhecimento da existência de diferentes estados de consciência e de que todos eles são aspectos distintos de uma subjacente unidade fundamental do Ser. Reconhece também a natureza espiritual do ser humano e sua inserção numa dimensão cósmica mais ampla.

A Psicologia Transpessoal entende a consciência na sua dimensão mais ampla, como Consciência de Unidade e o ser humano como um Ser integral: um ser biológico, psicológico, social, ecológico, cósmico e espiritual. O prefixo ‘trans’ significa ‘mais além’ e ‘através de’. Isto quer dizer que não se pretende na Psicologia Transpessoal uma evasão da dimensão pessoal, mas a busca da integração do transcendental ou do espiritual no nível pessoal, através de práticas que facilitam a emergência de outros níveis de consciência.  Estados de consciência que transcendem o ego, produzindo transformações que possibilitam alcançar a dimensão mais profunda do Ser.

A Psicologia Transpessoal trouxe uma enorme abertura para a pesquisa e a reflexão sobre o ser humano que, até poucas décadas atrás, era inconcebível  no contexto da ciência clássica. Com isso, está contribuindo para o alargamento e a oxigenação da ciência contemporânea, além de estar inserida no movimento da transdisciplinaridade.

No Brasil, a Psicologia Transpessoal obteve um importante desenvolvimento com as contribuições de Pierre Weil, Roberto Crema, Jean-Yves Leloup, Vera Saldanha e outros.

O estudo da Psicologia Transpessoal, e de sua forma particular de abordagem das questões relativas à natureza do ser humano, torna-se imprescindível para quem queira estar na vanguarda do conhecimento e das ações que possam contribuir para uma sociedade mais humanizada e pacífica.

A Psicologia Transpessoal reconhece os valores fundamentais que devem constituir o ser humano integral e também acolhe e legitima a espiritualidade no cotidiano e nas práticas cooperativas. Favorece a ampliação da consciência e o reconhecimento do ser humano enquanto uma unidade bio/psico/social/espiritual/ecológica. Nesse sentido, oferece uma importante contribuição para o campo terapêutico, para a educação, para a liderança nas organizações, para as associações humanas em geral e para a construção e lapidação do ser humano pleno.

 

 é coordenadora pedagógica do Curso de Especialização de Psicologia Transpessoal no campus de Nazaré Uniluz. Estão abertas as inscrições para a turma IV, que se inicia em maio/2016. Clique aqui para saber mais sobre o curso.


10 respostas para “A visão da Psicologia Transpessoal”

  1. Talita disse:

    Olá
    Quero saber sobre o curso de psicologia transpessoal para 2017
    Grata

  2. Cristiane disse:

    Bom dia!
    Minha maior dúvida no momento é definir a diferença, em poucas palavras, entre a Psicologia Tradicional e a Transpessoal. Comentei com algumas pessoas que quero cursar essa Pós-Graduação no próximo ano e quando fui indagada quanto a essa diferença, eu não soube responder de forma objetiva. Poderiam me ajudar? Grata desde já.

    • Uniluz disse:

      Oi Cristiane! Achei essa definição no site de Associação Brasileira de Psicologia Transpessoal:

      “É a ciência que aborda e estuda o ser humano em sua totalidade, como indivíduo na sociedade, e seus relacionamentos ecológicos e cósmicos. A Psicologia Transpessoal é basicamente transcultural e interdisciplinária, englobando outras abordagens cientificas, tais como: antropologia, medicina, sociologia, física moderna e outras.”

      Fonte: http://www.abptranspessoal.com/historia

  3. Karina disse:

    Olá,
    Gostaria de saber se vai ter este curso no ano de 2017?
    obrigada Karina

  4. Marisa Moruzzi disse:

    Eu gostaria de saber mais sobre esse curso ,que quero muito fazer..
    Preciso saber detalhes ..
    Grata
    Marisa

  5. Ana Lucia Freitas disse:

    Bom dia
    O principal questionamento e sobre a exigência da formação do interessado.
    Sou terapeuta a mais de 20 anos mas não possuo certificacao universitaria.
    Após três anos no curso de psicologia tranquei e nunca mais retornei.
    Quero saber se isso é impeditivo para estar nessa turma.
    GRATA

    • Uniluz disse:

      Olá Ana Lucia! Ficamos felizes com seu interesse! Por ser um curso de Especialização, o curso é aberto a candidatos com formação superior em qualquer área e mesmo sem formação superior. Para os aprendizes que têm interesse em receber um certificado de Pós-Graduação Lato Sensu, conforme as normas do MEC, a Uniluz está firmando uma parceria com uma Instituição de Ensino Superior que emitirá o diploma. Para mais informações, por gentileza acesse http://nazareuniluz.org.br/?page_id=4344

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