Meu espírito é selvagem (por Carine Corrêa)

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9 de novembro de 2016

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Tarde do dia 19 de outubro (2016) em Rio Claro, interior do Estado de São Paulo. O que dias depois seria uma revelação, teve sua história iniciada no Horto Florestal da cidade. Lá, entre os eucaliptos, estava presa em uma armadilha uma onça-parda, a Suçuarana. Foram duas noites longas pra ela, que foi laçada pelos fios de aço preparados por alguns caçadores. Durante duas luas, os cabos de aço comprimiram o seu abdômen. Na luta pela sobrevivência – pois a vida também pulsa em sua existência – a onça foi fincando suas garras rasgando o solo, arrancando lascas dos troncos das árvores daquele perímetro. Solitária na sua jornada, o felino deparou-se com um obstáculo: em seu instinto não há registro de conhecimento das ferramentas do Homem. Sente a sede que faz parte de sua necessidade. Sente fome que faz parte de sua nutrição. Caça e em disparada acerta sua presa. No útero da Madre Tierra, Pachamama, o conhecimento é passado e transmitido aos animais pelo cordão invisível que nos une.

Foi então que no segundo dia, pela manhã, passava pelo ponto da mata em que o felino estava, um guarda florestal, Irineu. O guarda avistou a onça e buscou por ajuda. Cheguei ao casarão da floresta, todo o cuidado no transporte da Suçuarana. Muito debilitada, quando a encontrei estava em uma gaiola, embaixo dela um pano azul. A tarde era quente e o sol judiava; a veterinária da Associação Mata Ciliar jogava fios de água para refrescar o corpo da onça. Sua respiração era lenta e transmitia cansaço – acompanhar o seu movimento de respiração, enchendo lentamente o pulmão, era um lamento.

Com o amigo índio Felipe Sucupira – um dos voluntários da Uniluz, em Nazaré Paulista/SP – compartilhei a frustração e a tristeza pelo ocorrido na mata, que fica aqui ao lado de casa. Tentei elaborar ritos em molde xamânico para punir aos caçadores. Poderia ser uma roda mascarada expulsando más intenções contra a floresta. Poderíamos recorrer às flechas. Imaginei em postura ereta, cabeça erguida, os braços na altura do olhar mirando meticulosamente o coração mal-intencionado do caçador. Aos poucos acertava a mira, olho esquerdo fechado e…!

Solto minha mão direita. Agora o caçador é a presa. Acerto o coração rapidamente, como um bote de cobra e com sensibilidade aguçada assim como a língua da serpente – um dos animais de poder que carrego em meu totem. Sem que eu pudesse completar a projeção em plano imaginário, Sucupira corta o meu pensamento com a flecha do seu coração. Sugere flechas de luz, porque até o caçador merece perdão. E porque até o caçador tem belezas a aflorar. Esse é o amigo guerreiro da luz, que veio ao mundo como a um mensageiro.

Três dias depois de ter sido encontrada no Horto Florestal, recebo a notícia que a onça-parda não resistiu e desencarnou. Foi ao manto sagrado da Pachamama – onde circulam os espíritos dos animais que partiram – que sua alma deleitou-se. No dia seguinte, participei de uma cerimônia em um espaço xamânico situado na cidade de Jaú. No Círculo dos Elementos conduzido pelo amigo elemental Bruli da Mata – que reside em Nazaré/Uniluz – a tribo dançou em volta da fogueira consagrando a união.

A fumaça invocava aos espíritos da floresta, em pedido sagrado, para me acompanharem. Foi quando na segunda parte do rito, ela se aproximou. Devia estar rodeando o espaço que eu estava. Só senti sua aproximação quando estava deitada sobre a grama. Curvei-me e abracei minhas pernas, coloquei minhas mãos no solo. Um dos cuidadores do ritual passou ao meu lado e rodopiou. Com o rosto pintado ele estava ao lado, soprando fumaça com outros irmãos da tribo.

Aí que ela chegou. Minhas mãos agora tinham garras e fincavam-se na terra. Meu rosto começou a expressar um rosnado. Eu mostrava os dentes para espantar os maus espíritos. As veias do pescoço saltavam enquanto firmava em fisionomia animalesca o meu território, e estabelecia os limites em energia hostil da noite.

Era eu a onça-parda, a Suçuarana, encontrada na floresta e que passou dois dias presa em uma armadilha. Seu espírito saiu do manto sagrado da Pachamama quando a fumaça dissipou-se pelo ar. Consegui comunicar que ali estava o meu corpo esperando encarnar o felino; em uma sagrada aliança entre espécies distintas: sacramento da energia da floresta. Fui celebrar pela dança o encontro sagrado e as energias fluíam, entravam e saíam.

Em cima da minha cabeça, a cabeça da onça. Seus dentes caninos encostavam-se à minha testa. Firmo nos passos da dança de índia que sou, a Suçuarana. Seu espírito agora encontrou a morada esperada – e seu instinto, e defesa, e garras, e destreza – carregarei para sempre comigo.

Agora, revelada,
Carine Suçuarana

 

Carine Corrêa é jornalista em Rio Claro e divide generosamente suas inspirações conosco aqui no site. Ela partilha artigos sobre autoconhecimento em seu blog:  http://www.jornalcidade.net/jcblogs/colunistas/carine-correa/


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